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Nossa História: Amigos, amigos, negócios à parte
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| Euclides José
Teixeira Neto |
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Texto extraído do livro
“64: Um prefeito, a revolução
e os jumentos”.
(A fábula do presidenciável Salém) -
Ed. Fator - 1983
Fomos
levados à prefeitura como jegue passa riacho: empurrado.
Exigência dos amigos. Podia então exigir deles
o que entendesse. De Valdemiro Santos, farmacêutico
diplomado, amigos dos que a gente no fim da vida não
enche os dedos da mão, solicitei que fornecesse os
medicamentos abatidos dez por cento no preço. O normal
seria ele, que me jogou naquele negócio de política
eleitoral, que me apoiou e gastou dinheiro na campanha, cobrar
favores e não aquilo que, agora, em tom de ameaça,
exigia eu.
Fosse como E.B., líder político à época
de largo prestígio na cidade – pretendente do
jogo do bicho – e teria zangado quando argumentei que
combatia aquela jogatina porque ela levava o trabalhador a
arriscar o litro de farinha dos filhos nas “duas cobras”.
Receberia a resposta:
- Ah! Mas o pobre, o deputado e o coronel jogam aí
em suas barbas e você não diz nada.
Ao que retruquei;
- Esses podem jogar até a alma... pouco me incomodo.
Resultado: E. até hoje fala comigo como se quebrasse
cumarim nos dentes. Não adiantou a defesa que fiz quando
acusado pela contravenção. E não podia
adiantar, pois ao saber que fora absolvido, creditara o mérito
à interferência que o Prefeito da época,
José Muniz Ferreira, tivera junto ao juiz (o incorruptível
e inabordável Leônidas Fernandes Leão).
Toda a minha argumentação jurídica afundou-se
no singelo pedido do cacique. E como a idéia predominante
é a de que a justiça age sob a ordem do executivo,
tanto mais para E. o meu trabalho virou cinzas.
Valdemiro
Santos era o amigo mesmo. Sem rodeios. No dia seguinte
à posse, o chefe da arrecadação, contrário
na campanha política, procurando criar intrigas, saiu
às ruas na batida fiscal que há anos não
fazia. Logo mais voltou a prefeitura e trouxe o fruto da sua
perfídia:
- Fui autuar
o Dr. Valdemiro Santos e ele não gostou.
Remoí a atitude, mas o ruim é quando não
se tem o diagnóstico da doença e, aqui, aparecia
claro.
- Ótimo, respondi.
O fiscal não entendeu e exclamou:
- Ótimo?! Como?
- Sim. Você cumpriu o seu dever. Faça o mesmo
com todos os infratores (o comércio inteiro).
- E agora?
- Agora é providenciar receber.
Desarmado
o homem, acalmado meu espírito que nada demonstrava
pela cara, ainda pedi, confiado no amigo Valdemiro,
certo de que o seu caráter daria um bom final à
autuação:
- Peço
só uma coisa: leve a autuação, receba
a multa com juros e tudo. Sei que Dr. Valdemiro
pagará, mas se você encontrar qualquer sombra
de resistência volte sem dizer nada.
O fiscal não acreditou em minhas intenções
e perguntou atrás da resposta que pretendia, mas não
obteve.
- Então não é para cobrar?
- Traga que
pagarei do meu próprio bolso, pois Valdemiro
é mesmo que meu irmão, a amizade vem do meu
pai, do tempo de Caldeirão, hoje Itaquara... Traga:
vai receber aqui na boca do cofre.
Até hoje, confesso, não sei se tanta liberalidade
minha era devido à amizade ou confiança no amigo
era tal que sabia da solução correta da parte
dele!
Dias depois inquiri:
- Como ficou
a multa de Dr. Valdemiro?
Veio a resposta:
- Ele pagou.
Ah! Quanta
gente existe no mundo com tal formação? Há
poucos Valdemiros.
Submeteu-se ainda, a que a prefeitura tomasse o preço
da praça, a fim de abater 10% do que lhe comprasse.
Mesmo assim, esta não era a melhor solução.
Chamei o viajante do laboratório. Aí fiquei
abismado. Ao comprar dois mil frascos de penicilina, recebia
mil de bonificação. Se adquirisse mais, esta
seria maior. Os laboratórios abiscoitavam lucros absurdos
com certeza. Raciocinei: se distribuem tantos favores até
aí muito bem. Mas por que sempre estão a pedir
reajustamentos nas tabelas de preço? Senti o quanto
mais valia do comércio, sem falar das multinacionais,
retira de todos.
Daí
em diante só comprava com os 10% ao prestimoso Valdemiro
os medicamentos que não davam para fazê-lo em
quantidade. O amigo velho soltou o riso de bom entendedor
e mais uma vez não teve nenhum gesto de desagrado.
A esta altura deve passear no céu, pelo menos de nossa
saudade e lembrança, pesado dos pecados que nós
outros gostaríamos de cometer e não tivemos
coragem; mas, sem suas virtudes, estas, sim, que não
temos timbre de possuí-las.
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